Imagem capa - Existem Lentes Radioativas e Você Pode Estar Usando Uma! por Vitor Hugo Nercolini Rebellato
HumorHistória

Existem Lentes Radioativas e Você Pode Estar Usando Uma!

Sim, aquela lente vintage pode ser radioativa!



Imagem meramente humorística!


Com o avanço da fotografia digital (e das novas mirrorless lançadas pela Sony, Fuji, Canon e Nikon), surgiu um grande interesse dos fotógrafos por  usar lentes antigas adaptadas às câmeras digitais e buscar um visual retrô, vintage. Eu mesmo já fiz isso, com a minha câmera Canon 5D Mark II.

As fotos a seguir foram feitas com uma lente Yashinon-DS-M 55mm f/1.2, fabricada pela Yashica.








No entanto, você sabia que a lente que eu usei nessas fotos, assim como outras, é radioativa?

Entre as décadas de 40 e 70, alguns fabricantes empregavam elementos radioativos nas lentes, que traziam grandes benefícios ópticos. O óxido de tório era usado para melhorar a qualidade óptica, pois elementos com esta substância traziam benefícios como um alto índice refrativo e baixa dispersão. Isso resultava em lentes com performance superior. Em todo projeto de lentes, deve-se fazer concessões para obter outros benefícios, e para um projetista de lentes do século passado, ter um benefício óptico significava usar elementos radioativos! 



Sim, eu fiz fotos em 2015 sem fazer a mínima ideia que estava usando uma lente radioativa.


Como identificar uma lente radioativa?

Você pode usar um medidor Geiger! Mas como nem todo mundo tem um desses medidores em casa dando sopa. É possível identificar uma lente radioativa visualmente: quando estas lentes ficam guardadas em locais confinados, podem desenvolver um leve tom marrom, avermelhado ou amarelado. Isso ocorre porque o óxido de tório sofre decaimento radioativo, ou seja, por emitir radiação, sofre alterações na sua estrutura e muda de cor. Antes de comprar uma lente vintage, vale a pena consultar este diretório aqui que possui uma lista com algumas lentes comprovadamente radioativas. Eu mesmo consultei a lente que estava usando na foto acima e descobri que ela emite 1056 nSv/h, sendo um dos mais altos registros que o site possui.



Lentes com a cor característica, sendo a terceira da esquerda para direita tratada para eliminar a coloração. 


Além da Yashica, quem fabricava lentes assim?

O maior produtor de lentes radioativas é com certeza a Eastman Kodak. Várias câmeras amadoras eram radioativas, como a Pony, Signet e a Instamatic. Muitas lentes profissionais Aero Ektar (usadas para reconhecimento aéreo durante a II Guerra Mundial) também continham óxido de tório. Os vidros tinham um tom levemente amarelado, considerado um defeito. No entanto, com o uso de filme preto-e-branco, esta característica melhorava o contraste das imagens;



Lente Antiga Aero-Ektar.




Kodak Signet 50, que possui lentes com óxido de tório


Lentes notavelmente famosas possuem elementos radioativos, como a Nikkor 35mm f/1.4, a Asahi Super Takumar 50mm f/1.4 e a Canon FD 55mm f/1.2.



Nikkor 35mm f/1.4



Canon FD 55mm f/1.2.



Asahi Super Takumar 50mm f/1.4


Tenho que me preocupar?

Antes de enterrar sua coleção de lentes no quintal de casa em um caixão de chumbo e cobrir com cimento... ou, antes de comprar um traje anti-radiação para usar durante os clicks, pode ficar tranquilo, os seus riscos de sofrer com radiação são muito baixos!

Um estudo realizado pelo departamento de Física do Instituto Real de Tecnologia da Suécia estima que a exposição total a um fotógrafo profissional usando lentes com tório equivaleria a apenas 0,2% de exposição anual permitida ao olho e 0,17% ao restante do corpo, de acordo com os padrões da Autoridade Sueca de Proteção Contra Radiação.

Uma lente radioativa pode emitir aproximadamente 0,01 mrem por hora. Se você usar esta lente 6 horas por dia durante 30 dias, vai receber aproximadamente 0,7 mrem. Agora vamos comparar com outras situações:

- Um raio x do peito emite uma dose mil vezes maior em um disparo.

- Uma dose fatal tem que ser 2 milhões de vezes maior que o da lente!

Porém um perigo real do vidro com tório é se este for empregado em visores de microscópios, telescópios ou de câmeras fotográficas. A radiação alfa concentrada nestes equipamentos, mesmo em níveis baixos, transporia a íris sem ser dissipada, alcançando assim níveis que que podem danificar a córnea do olho, causando catarata. Se você comprar um telescópio ou microscópio antigos, certifique-se que os visores não tem uma coloração como citamos acima.


Atualmente, quais substâncias são alternativas ao vidro de tório?

Claro que vender lentes com partes radioativas não é fácil. Por conta disso, os fabricantes buscaram substâncias inertes, ou seja, que não são radioativas. Novos materiais passaram a ser empregados, como o óxido de lantânio e o vidro de fluorofosfato. Grandes marcas possuem vidros com fórmulas próprias que são segredos industriais: Nikon usa vidros ED; Canon emprega fluorita e vidros UD; a Leica com óxido de zircônio, entre outros.



Inscrição ED, abreviação de Extra low Dispersion, em uma moderna lente Nikon.



Moderna telefoto Canon 400mm f/2.8, que utiliza UD e de Fluorita nos elementos internos.



Fontes:

https://lhsa.org/2018/09/rare-earth-glass-leica-lenses-a-quick-and-quirky-overview/

http://gmpphoto.blogspot.com/2017/05/optical-glass-for-photographic-lenses.html

https://global.canon/en/eflens/ef-evolution-of-l/technology/canon-optical-technology/index.html

https://en.wikipedia.org/wiki/Low-dispersion_glass

https://www.fourmilab.ch/documents/radiation/lens/

https://camerapedia.fandom.com/wiki/Radioactive_lenses

https://xkcd.com/radiation/